Toda aquela babação durante o churrasco. Sabe aquela hora que você percebe que todo mundo na festa é parte de um casal - inclusive você? Então. Ao seu redor, um único assunto. O meu desmamou com tantos meses, o meu isso, o meu aquilo. Você quer um, evidente. Você quer mais do que sabia que queria. Brinca com o dos outros, vai ficando empolgada - namorado brinca dizendo - perdi minha mulher. Discretamente, você confessa pra ele que realmente quer um - e quer logo. Ele - atiçando suas vontades - diz que vocês terão o seu em breve. Promete? Prometo. Não demora, você está com os olhos marejando: você realmente quer um cachorrinho.
Balbuciar
Quando você está aprendendo a falar, você balbucia. Quando está desaprendendo, idem. É que se expressar é o que há de mais humano em todos nós - o fazemos mesmo quando não sabemos bem como fazer. E nessa tentativa torta de estabelecer contato com o outro, você encontra respostas que nem sabia que possuia. Bom... Pelo menos comigo, é assim que acontece.
domingo, 5 de maio de 2013
terça-feira, 30 de abril de 2013
Sobre nomes próprios e demonstrações públicas de afeto.
Eu devia ter 12, talvez 13 anos. Um dos meus primos estava contando uma historia qualquer quando pontuou: "se me chamam pelo nome, já sei que lá vem briga." Estranhei a colocação, questionei, ele tentou explicar, mas pra mim, simplesmente não fazia sentido. Como é que chamar alguém pelo nome – por mais feio que fosse esse nome - seria indicativo de desavença? Mais de 15 anos depois, sem razão aparente, lembrei do episodio e me ocorreu uma resposta.
Nunca fui uma pessoa muito melosa. Não com um cara com quem eu estivesse. Se eu expunha sentimentos, era um indicativo de que a relação já chegara ao fim - qualquer excesso era justificado pelo superlativo que os rompimentos sempre concedem a uma historia. No durante eu reprimia. No depois, teorizava e romanceava.
Pois bem. Calhou que encontrei alguém com quem, desde o começo, fui dolorosamente sincera - despretensiosa sobre nosso futuro, mostrei cada neurose que me atormentava. Ele, ignorando conselhos recebidos, não fugiu. Com o tempo e a intimidade, acabei estendendo essa sinceridade a qualquer termo afetuoso que me ocorresse - um sem fim de apelidos, fofos ou nem tanto, constrangedores em sua maioria, usados diariamente sem maiores restrições de público ou ocasião.
Exceto, é claro, quando o clima fica tenso. Primeira mostra disso é que voltamos a usar o nome um do outro. O tom doce e cheio de manha e substituído por outro, frio, quase profissional.
É claro que isso não se restringe à vida a dois. Minha irmã é a neném, chamo minhas primas de filhotas, ou bebê, ou ainda do mesmo jeito que as tratava quando elas tinham cinco anos de idade - iaiá, condessa, etc.
Apelidos são demonstrações públicas de afeto (não consigo dizer isso sem cantarolar P.D.A.,do John Legend - Let's go to the park/ I wanna kiss you underneath the stars...). Não cabem quando a situação é séria, quando a irritação surge, quando a raiva é extravasada, ou qualquer situação semelhante que consigam imaginar. Cabe na tristeza: é como tentamos controlar a situação, limitar os danos, consolar, demonstrar que ainda nos importamos. Apelidos, no fim das contas, são um termômetro de carinho.
Sabe o que é realmente estranho? Sempre me disseram que mulheres amadurecem mais cedo que os homens. Não é incrível que eu tenha levado tanto tempo pra identificar algo que meu primo já sabia desde o início da adolescência?
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segunda-feira, 15 de abril de 2013
Sobre idiossincrasias específicas.
Idiossincrasias são características peculiares à personalidade e comportamentos humanos que tornam cada indivíduo único - para o bem ou para o mal, seja lá o que isso signifique. São aqueles pequenos hábitos, manias, trejeitos, que tornam algumas pessoas adoráveis e outras enlouquecedoras, de um jeito ruim.
Quando você está a beira de começar a falar sobre as idiossincrasias alheias num recurso, é hora de parar e procurar outro canto pra desabafar. Petições não são o melhor lugar para isso - apesar de nossos eventuais deslizes que comprovam nossa falta de auto-controle nesse tópico. Não deveria ser assim, mas, eventualmente, acontece. O curioso é que, quando fazemos isso, e nos entregamos a paixão que a profissão nos desperta, produzimos os melhores textos das nossas vidas - ainda que não seja a melhor forma de conseguirmos o que estamos buscando ali.
É que certas vezes, os absurdos com os quais nos deparamos são grandes demais para se ignorar.
Eu sei que, dia após dia, coisas erradas no mundo, numa proporção gigantesca, imploram por nossa atenção - catástrofes ambientais, luta pela igualdade civil, atentados em eventos esportivos, fome pelo mundo, doenças incuráveis, etc, etc. Mas tudo isso, ao mesmo tempo, lida com a imensidão: podemos fazer a nossa parte, mas não estamos no controle. Podemos recolher o lixo que produzimos numa visita à cachoeira, mas não podemos garantir que os visitantes seguintes farão o mesmo. Podemos defender o direito de cada um se casar com quem bem entender, assinar petições, fazer barulho, mas não podemos (e nem acho que realmente queremos) calar quem pensa diferente. Podemos pregar a compreensão - ou pelo menos a tolerância -, mas nunca negar o direito à liberdade de expressão - chamando, é claro, a atenção para o direito de resposta e/ou à reparação, para quem se entender como ofendido. Podemos participar de campanhas de solidariedade, recolhendo e doando alimentos, roupas, brinquedos, mas não podemos acabar com o desemprego. São essas batalhas diárias que testam nossa resistência e nossa fé - não apenas em Deus, mas em nós mesmos. Testamos a cada dia nossa fé na esperança e na persistência, lutando pelo que achamos certo.
Não sei como é com vocês, mas no meu caso, é a minha profissão que me redime. Advogando, em especial, quando recursos são necessários (para combater sentenças que entendemos como erradas - seja por mero equívoco na compreensão do contexto probatório, seja por pura falta de com senso), acabo desabafando. É o único lugar onde encontro uma chance de corrigir o mundo, o meu mundo. É o único lugar onde minhas idiossincrasias são razoáveis e cabíveis. Eu preciso acreditar no que digo. Preciso ter a certeza de que estou certa. se não o tenho, a petição fica rasa - os fundamentos do texto, a tese a ser defendida, tudo isso tem que vir da minha paixão pela verdade, da minha absoluta certeza de que o meu entendimento é o que deve prevalecer. Não se trata de prepotência de ser a dona da razão. Se trata de fazer justiça, do jeito certo. Cada um tem que fazer sua parte para pôr ordem no caos que insiste em dominar nosso cotidiano. Cada um encontra seu jeito de organizar tudo. Comigo, é bem simples - um processo de cada vez.
terça-feira, 26 de março de 2013
Das explicações que eu quero dar.
Sempre achei que imagens, nos blogs, serviam apenas para aumentar o tamanho da postagem. Era perfumaria, era acessório - chamava atenção, mas acrescentava pouco para o conteúdo. Uma espécie de disfarce para não se alongar - uma nota rápida se travestia de texto analítico ou crônica, menos pelo conteúdo e mais pelo conjunto final, dele somado à imagem que fingia lhe completar.
Em algum ponto, caí nessa armadilha e comecei a ilustrar as postagens.
Não há mal nas imagens em si. São adequadas, ilustrativas, e poderiam enriquecer o conteúdo - muitos amigos meus tem o dom de fazê-lo. Mais do que isso: criam suas próprias ilustrações e trazem um conteúdo artístico, que mescla sentimentos e sintetiza isso numa webcomic.
Desenho, no entanto, nunca foi um dos meus talentos. Nem fotografia, artes gráficas, colagens, nada disso. Admiro imensamente quem tem habilidades que não me couberam, mas que me fascinam, num nível de encantamento difícil de ser descrito.
Eu sempre fui mais de escrever. Sempre foi meu jeito de lidar com tudo. Frequentemente, ultrapassei osa limites do bom senso, tanto me expondo, quanto aqueles ao meu redor. A mudança de tom no blog é fruto da minha tentativa de não mais fazê-lo.
Só que é uma tarefa extremamente empírica: como manter o objetivo do blog mudando a abordagem dos textos? Honestamente, não sei. Talvez essa seja uma das muitas explicações pra baixa produtividade que vem reinando aqui.
O Balbuciar está aqui desde março de 2007. Nesses seis anos de blog, muita coisa mudou. Eu mudei. Quando comecei o blog, não pensava em por termo às publicações. Hoje é diferente. Já fiz isso uma vez, voltei atrás, e é possível que eu o faça novamente. Por mais terapeutico que seja escrever aqui, isso exige uma entrega à qual não me permito mais. Argumento recorrente na página é que uma vez escrito, tudo se torna definitivo. Deixam de ser as minhas idéias e divagações e passam a estar abertas às interpretações alheias, e não há nada que eu possa fazer a respeito. Então, se é algo que não estou pronta para lidar com o que vão pensar ou entender, não vale a pena publicar.
(O que não significa que eu não queira mesmo assim)
quarta-feira, 6 de março de 2013
Ano Um
Presente pro namorado no nosso aniversário de um ano juntos.
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terça-feira, 5 de março de 2013
Verbofobia
Vivo um drama cotidiano, possivelmente compartilhado por todo mundo que fala muito: o medo de falar demais. Aquela tensão que aparece quando estamos limítrofes e alguém nos pressiona mesmo assim. Não que pressionem por maldade, ou mesmo que percebam que estão fazendo isso. Ainda assim, ficamos em uma situação de risco, já que frequentemente isso culmina em explosões verborragicas - e obviamente não se pode pegar de volta o que já foi dito. Olha aí a receita pra uma vida repleta de ansiedades desnecessárias.
Ando me sentindo assim: acuada, tensa, pisando em ovos. E justo quando estou deprimida por minhas próprias razões. Não quero magoar ninguém, nem descontar meus problemas nos outros , mas quero poder dizer o que eu penso, sem me sentir como uma carrasca por fazê-lo. Achar o meio termo: eis o santo graal do nosso século.
Ando me sentindo assim: acuada, tensa, pisando em ovos. E justo quando estou deprimida por minhas próprias razões. Não quero magoar ninguém, nem descontar meus problemas nos outros , mas quero poder dizer o que eu penso, sem me sentir como uma carrasca por fazê-lo. Achar o meio termo: eis o santo graal do nosso século.
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Sobre arquivos
Estava reorganizando meus arquivos de mp3 - a pasta dedicada as músicas de Glee. Tenho os albuns, mas também guardo arquivado por temporada e episódio. Eu sei, exagerado... Anyway. Conforme passava pelas pastas, lembrava dos casais, tipo grande amor dessa semana, que foram apresentados pela série. Por um instante, fiquei incomodada - Ryan Murphy ilustrando amor como quem fotografa tendencias da estação?
Hipocrisia minha.
Antes de explicar, abro um parêntese. Namorado estava usando como mousepad o compêndio que fiz de postagens do Balbuciar, de 2007 a 2009 - Uma fase minha que pouco fica devendo às cirandas emocionais de Glee, um caos devidamente excluído da internet, mas guardado pelo diário que é. Ele leu "alguma coisa", palavras dele. Respondi que é por isso que não se deve ler os diários alheios. Ele argumentou que se estava na internet não era diário, então ele podia ler. Posto que ele é beeeem mais tranquilo do que eu, não gerou nenhuma briga - Tentou se lembrar de que foi a cinco anos, anyway. Mas enfim, tá lá. Meu arquivo emocional pós faculdade. Minhas paixões de ocasião, que, como os textos, foram excluídos do currículo online, arquivados como cabe à qualquer coisa passada.
Eventualmente, tantos os personagens de séries quanto nós mesmos conseguem aprender a diferença entre a paixão de uma semana e o que realmente vai durar. Ainda assim, o passado (em arquivos) tem o seu papel: nos dão experiência e nos fazem aprender importantes lições de convivência - com os outros e com nós mesmos. Daí o motivo de manter os arquivos numa estante. Isso, e, é claro, ajudar no trabalho do seu biógrafo.
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Abusar.
Sou dessas pessoas que abusam. Não que abusam de exageram ou tiram proveito. Abusar como sinônimo de cansar mesmo. Eu me canso, abuso. Abuso de roupas, de canções, comidas e lugares. Mas, pior do que isso, me canso de pessoas. Não de todo mundo, mas de certas pessoas em especial. Pronto, falei.
Não significa que, depois de abusar, eu passe a odiar. Não. Só que me sinto especialmente cansada e desmotivada com relação ao que me causa abuso. Tipo as músicas da Adele ou bolo prestígio. Não que eu tenha passado a achar ruim - só não sinto a menor disposição para ouvir as canções ou provar uma fatia do bolo.
Com certas pessoas também é assim. Em algum momento, por algum motivo, me cansei. Não que seja culpa de alguém - nem minha, nem delas. Mas, para preservar a convivência, para evitar perder por completo o apreço que eu lhes reservava, passo a evitar. Faz com que os momentos de encontro sejam sinceros, honestos e genuinamente agradáveis.
Hoje, por exemplo. Um antigo colega de trabalho apareceu pra uma visita. A conversa foi animada, as novidades foram compartilhadas, as felicitações verdadeiras, e o "tava com saudade" completamente honesto. Senti falta, de verdade. Mas se as visitas se tornassem diárias, dificilmente o nível de amabilidade permaneceria intacto.
Acrescento que acho perfeitamente razoável que as pessoas se cansem de mim. Portanto, quando estiverem bem perto de abusar, me avisem. Guardo distância e prometo me esforçar pra não ficar ofendida com a situação.
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| Não que eu odeie, mas eu prefiro me abster. |
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domingo, 3 de fevereiro de 2013
Espelho de salão.
Ainda mais do que comprar roupa ou biquíni, espelho de salão é algo que derruba minha auto estima. Talvez por isso mesmo eu devesse enfrentá-lo com mais frequência.
Em teoria, o que ele mostra é o mesmo que o espelho de casa ou da academia. Não é como eu vejo as coisas. Em casa, o espelho reflete um visual pronto: um espelho de rosto acompanha a evolução da maquiagem, um de corpo inteiro faz a checagem final antes de sair. O do salão é diferente. Deprime por uma, duas horas seguidas. A luz é intensa, o cansaço evidente, o ângulo ruim, a exposição prolongada, o nervosismo crescente, a avaliação negativa. Espelho de salão me deprime, mas talvez isso seja bom: não gosto de me sentir assim, então, fico entre tentada, motivada e decidida a tomar providências mais drásticas pra mudar o que me incomoda. Acompanhem as consequências.
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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
De presentes não ganhos e mesmo assim presentes...
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| A bendita maquininha de escrever |
No natal de 1989 ou 1990, não sei ao certo, pedi uma máquina de escrever. Supostamente, pedi isso pro papai noel, embora me lembre de ter espionado o porta-malas do carro do papai e visto meu presente lá - e sim, eu estava procurando antes da hora. No entanto, quando abri o presente, ao invés da maquininha de escrever encontrei uma caixa registradora. Pelo que me lembro, gostei do presente.
A década de 80 era uma época cara. Não havia essa invasão de brinquedos estrangeiros - que ocorreu nos anos seguintes; brinquedos eram da estrela ou da glasslite e custavam uma fortuna. Barbie (de marca, e não genérica), por exemplo, nunca tive. Até hoje, não sei se ganhei a caixa registradora porque a máquina de escrever era cara demais, se meu pai não encontrou ou se simplesmente queria que a filha crescesse com tino comercial - se foi essa última, a estratégia falhou.
Honestamente, não sei o que uma criança de quase cinco ou seis anos queria com uma máquina de escrever. Mas eu queria. Talvez fosse porque no trabalho do meu pai existiam muitas. Talvez fosse um prenúncio de uma vocação latente (que morreu por não ter sido incentivada com a bendita maquininha). Não sei. Mas eu queria: uma máquina de escrever pra fazer um livro. Ou um jornal. Ou avisos.
Não que frustração, nessa época, durasse alguma coisa. Lembro de brincar bastante com a caixa registradora - enchendo a paciencia dos meus pais, com amiguinhas, e lembro de ter trazido o brinquedo pro Tocantins. Fiquei com ela mais anos, até que quebrasse. Não me lembro quando nos desfizemos dela.
A década de 80 era uma época cara. Não havia essa invasão de brinquedos estrangeiros - que ocorreu nos anos seguintes; brinquedos eram da estrela ou da glasslite e custavam uma fortuna. Barbie (de marca, e não genérica), por exemplo, nunca tive. Até hoje, não sei se ganhei a caixa registradora porque a máquina de escrever era cara demais, se meu pai não encontrou ou se simplesmente queria que a filha crescesse com tino comercial - se foi essa última, a estratégia falhou.
Honestamente, não sei o que uma criança de quase cinco ou seis anos queria com uma máquina de escrever. Mas eu queria. Talvez fosse porque no trabalho do meu pai existiam muitas. Talvez fosse um prenúncio de uma vocação latente (que morreu por não ter sido incentivada com a bendita maquininha). Não sei. Mas eu queria: uma máquina de escrever pra fazer um livro. Ou um jornal. Ou avisos.
Não que frustração, nessa época, durasse alguma coisa. Lembro de brincar bastante com a caixa registradora - enchendo a paciencia dos meus pais, com amiguinhas, e lembro de ter trazido o brinquedo pro Tocantins. Fiquei com ela mais anos, até que quebrasse. Não me lembro quando nos desfizemos dela.
Letras versus números, o incentivo a ser alguém das exatas não adiantou. Sempre fui péssima em matemática, e, ao invés de empreendedora, sempre fui afeita a comprar. A caixa registradora é algo que sempre vejo pelo lado oposto.
Acho curioso. Ainda que existam diversos ramos e profissões possíveis, acabei em uma que remete ao presente de infância que eu queria: passo a maior parte do meu tempo escrevendo numa versão aparentada daquela maquininha que eu tanto quis. Uns dez anos depois, no meu aniversário ganhei meu primeiro computador - que ficou comigo por outros bons dez anos. O tec-tec-tec do teclado se tornou um amigo fiel, companheiro de das boas ou tristes. Seja lá o que eu queria escrever, nunca se manifestou ao certo. Ainda assim, parece simbólico: não me lembro de outro presente de natal, ganho ou não, que tenha permanecido tanto tempo na minha memória ou tão constante na minha vida...
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| Não tenho uma dessas, mas bem que eu queria... |
domingo, 6 de janeiro de 2013
Lei do desapego
Blá blá blá, sou ciumenta. Quem é que não sabe disso? Ciúmes do namorado? O bastante pra dez vidas. Ciúmes da família? Num nível assustador - que o digam os ex da minha irmã, que, segundo dizem, tem medo de mim. Mas situações bobas nesse ano novinho em folha me trazem à mente que nem tudo anda shine and new. O tal monstro de olhos verdes anda atazanando minha vida dessa vez noutra seara: meus amigos.
Ando nessa vibe paz e amor, eu não odeio ninguém, mas convenhamos: todo mundo implica com alguém. E se já não queremos dividir aqueles à quem queremos bem com pessoas de quem também gostamos, imagine com esses outros. Esse aí mesmo, cujos santos não batem com os nossos, com ferrugem nos sorrisos e uma polidez rigidamente mórbida.
Bobagem, né? Eu sei. Nem é uma grande novidade. Mas é que eu andava me achando tão evoluída nesse quesito que dar piti gerou um novo alerta. Me vejo repetindo um novo mantra: desapega. Desapega desses sentimentos negativos, desapega dessas birras infantis, desapega dessas raivinhas, desapega de qualquer competição boba, desapega de toda energia ruim. Desapega.
Acabo caindo sempre no mesmo ciclo vicioso. Quando acho que superei essa ciumeira boba, algo acontece pra me mostrar que não, eu não superei porcaria nenhuma. É cansativo viver esse exercício diário. Mas ok: se isso é parte do aprendizado que me cabe, vou continuar praticando.
(Mas que incomoda, ah, incomoda...)
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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
2012 - Um Balanço
Tradição é algo importante. Te faz reafirmar valores, relembrar a história, prestar homenagens, demonstrar o devido respeito. Se você souber como fazê-lo, ao manter as tradições, acaba aprendendo algo com elas. Fazer um balanço do ano é uma tradição do Réveillon. Pensar em tudo que aconteceu, contabilizar perdas e ganhos, assinalar erros e acertos, tomar decisões sobre o que manter ou descartar. Não que tudo isso não possa ser feito em qualquer outro momento, tomando em conta um período de tempo maior ou menor que o ano - pode, e nem por isso perde seu valor. Mas reflexões e análises parecem tão intimamente ligadas ao fim de ano, que este perde parte do seu simbolismo se assim não o fizermos.
Minha perda mais sentida em 2012, sem nenhuma dúvida, foi minha avó paterna. D. Raimunda partiu sem aviso, no primeiro feriado em anos onde a maior parte da família, que tradicionalmente está por perto, estava espalhada Brasil afora. Não que fizesse diferença. Não sei. Faz, eu acho. Não na trajetória, mas no sentimento de culpa.
Vovó se foi num domingo de carnaval. Eu estava em Palmas, minha irmã em Gurupi, os meus primos que sempre passavam feriados em casa, estavam em Goiânia. Nenhum de nós estava onde costumamos estar. É bobagem, eu sei. Superstição. Nossa presença não seria o bastante para mantê-la viva. Ainda assim... Não consegui me livrar dessa sensação. Achei que era a única, mas minha irmã me confessou o mesmo poucos dias atrás. Com ela, de certa forma, é pior, por causa do curso - guarda lembranças de dizer, naquela manhã, por telefone, quando mamãe ligou pra contar que tinha levado vovó ao hospital, que aquilo era um infarto, e não um mal estar qualquer como alegou o médico; o diagnóstico se confirmou na tarde daquele mesmo dia.
Na verdade, lembro pouco da data. Lembro que cheguei de Goiânia, e que minha mãe me ligou quando eu saia de Taquaralto pra contar que estava levando a vovó no hospital; que me ligou, quando eu já estava no apartamento, pra contar que a vovó estava em casa e tinha sido só um mal estar. Lembro que fui com o Thiago pro churrasco de aniversário do irmão dele, e que estava lá quando mamãe me ligou, chorando, no meio da tarde, perguntando onde eu estava e me dizendo pra ir pra casa arrumar minhas coisas. Puxando pela memória, não me lembro dela dizendo que a vovó morreu. Deve ter dito, é evidente, mas simplesmente não me lembro. Lembro de perder as forças e me apoiar na parede, e ir atrás do Thiago pra dizer o que houve e sair em seguida. Lembro que ainda estava na mesma quadra, manobrando, quando tia Roseneide me ligou, mas não me lembro do que conversamos - algo sobre a Pâmela vindo de Gurupi, eu acho. Não me lembro do trajeto que fiz. Lembro de estacionar na porta de casa, na contramão, quando a Pâmela me ligou. Estava desesperada, porque não tinha como sair de Gurupi naquela hora, a primeira van seria somente duas horas a contar dali. Não me lembro de entrar em casa, menos ainda de deitar, mas as lembranças seguinte são de telefonemas aleatórios sobre a ida pra casa. Decidi, em algum ponto, deixar que minha tia seguisse viagem. Eu iria quando a minha irmã chegasse a Palmas. Lembro do Thiago chegando no apartamento, e dizendo que achava que eu já tinha viajado, se oferecendo pra ir junto e me fazendo companhia até que a Pâmela ligou. Uma amiga, a Fran, tinha vindo acompanhando ela, e poucas vezes me lembro de ter me sentido tão grata por alguém cuidar da neném assim.
Do percurso, recordo alguns trechos - parar pra abastecer, trocar pneu, borracharia. Minha irmã estava com febre - carnaval é tempo de chuva, ela havia se resfriado - e depois de Colinas ela estava exausta, mandei ela dormir. Só que eu também estava no meu limite. Em Araguaína, admiti isso. Parei, lavei o rosto, mas não encontrei um posto na beira da BR onde eu pudesse tomar café naquela noite. Segui viagem, mas só Deus sabe como. Na cidade seguinte, minha irmã assumiu a direção. Eu quase dormi ao volante mais de uma vez naquela madrugada. Com ela dirigindo, acabei pegando no sono por pouco mais de meia hora. Na divisa com o Maranhão, reassumi o volante. Não sei se chegamos em casa quatro ou cinco e meia da manhã. Daí por diante, tudo são borrões. Não me lembro de nada que eu possa descrever. Nada. Não me lembro da missa. Lembro vagamente do enterro, e de forma ainda mais confusa, dos dias seguintes. Lembro bem da missa de sétimo dia. Só. Curioso como algumas coisas ficam marcadas na memória, enquanto todo o resto se dissolve e mistura num borrão indistinto.
Do percurso, recordo alguns trechos - parar pra abastecer, trocar pneu, borracharia. Minha irmã estava com febre - carnaval é tempo de chuva, ela havia se resfriado - e depois de Colinas ela estava exausta, mandei ela dormir. Só que eu também estava no meu limite. Em Araguaína, admiti isso. Parei, lavei o rosto, mas não encontrei um posto na beira da BR onde eu pudesse tomar café naquela noite. Segui viagem, mas só Deus sabe como. Na cidade seguinte, minha irmã assumiu a direção. Eu quase dormi ao volante mais de uma vez naquela madrugada. Com ela dirigindo, acabei pegando no sono por pouco mais de meia hora. Na divisa com o Maranhão, reassumi o volante. Não sei se chegamos em casa quatro ou cinco e meia da manhã. Daí por diante, tudo são borrões. Não me lembro de nada que eu possa descrever. Nada. Não me lembro da missa. Lembro vagamente do enterro, e de forma ainda mais confusa, dos dias seguintes. Lembro bem da missa de sétimo dia. Só. Curioso como algumas coisas ficam marcadas na memória, enquanto todo o resto se dissolve e mistura num borrão indistinto.
Me alonguei demais. É que nada foi igual depois disso. Só consigo ter pensamentos egoístas em relação à perda dela: tudo o que eu queria que ela visse, quem eu queria que ela conhecesse, o que eu queria que ela soubesse. E falar da maior perda do ano - provavelmente, a maior perda da minha vida, até agora - me leva a falar do maior ganho. A companhia dele foi o que me permitiu enfrentar tudo isso sem enlouquecer (mais ainda). Já disse pra ele que a perda da vovó foi um catalisador pra nós. Não deu causa, mas apressou as coisas. Ele diz que não duvida. O fato é que estávamos no começo, e depois disso, tudo foi muito rápido. Ok, isso soou mal. Não é uma reprimenda, nada da espécie. Só uma constatação. Os acontecimentos mudaram o ritmo de todo o resto.
Se me fosse possível descrever, com antecedência, como seria a pessoa que eu queria ter por perto pra enfrentar acontecimentos assim, eu nem de longe teria a imaginação e inspiração necessárias pra descrever ao certo. Mas a providência não falha. Quem estava ao meu lado tinha o que eu precisava e nem sabia que precisava. Me confortou, acolheu, foi paciente com meus muitos acessos de choro. Esteve lá, não porque eu pedi, mas porque ele quis - e se isso não é trabalho da providência, não sei mais o que poderia ser; não é parte da minha personalidade pedir atenção e companhia em momentos assim - não que eu não precise disso, simplesmente, não peço.
Temos funcionado bem juntos, o que é engraçado quando se olha pro que normalmente se analisa ao falar de compatibilidade entre casais. Eu sou corintiana, ele flamenguista. Eu sou tucana, ele petista. Sou do Direito, ele do Jornalismo. Eu sou caseira, ele gosta de sair. Eu sou religiosa, ele não gosta de igrejas. A lista é longa, acreditem. No entanto, nada disso nunca gerou mais do que provocações saudáveis. Nem se trata de tolerância. É sobre aceitação.
A Marina, uma amiga minha, foi quem mais riu disso tudo. Antes de me envolver com o Thiago, fizemos uma lista de todos os nãos, fatores que extinguiriam meu interessem em qualquer cara. Bem lista de compras, sabe? Não pode ter cabelo grande, ser de comunicação social, tem que ser católico praticante, coisas do gênero. Ter sido casado (ainda pior se tivesse filhos) era o fator que mais pesava. Aí me aparece o Thiago, com um cabelo maior que o meu, estudante de jornalismo, que eu conheci quando estava dissolvendo união estável com a mulher com quem ele tinha um filho. E foda-se a lista. Marina se acabava de rir: cospe pra cima que cai bem na testa. Caiu. E não poderia ter me deixado mais feliz. Acho que isso é simbólico quanto ao valor que damos à rótulos. O engraçado é que demorei a perceber o óbvio. Quando parei pra pensar na lista dos nãos, nenhum deles realmente me importava, porque já tinha visto todos os sims que eu precisava. Eu o amo. Tá lendo isso, Thiago? Eu te amo. Não é uma equação lógica. É claro que eu vejo as qualidades dele, mas não acho que seja só isso. Amo, e isso não se explica. Sempre que acordo ao lado dele, fico olhando e pensando na sorte que eu tenho de tê-lo comigo. Em tudo que de repente se tornou possível. Em como eu quero que isso perdure pra sempre. Nesse momento, fica registrado, só por precaução, que se por algum motivo as coisas mudem de rumo, ainda assim, sou imensamente grata por tudo que você fez por mim, leãozinho. Eu não sei se teria chegado ao fim desse ano sem a sua ajuda.
Se me fosse possível descrever, com antecedência, como seria a pessoa que eu queria ter por perto pra enfrentar acontecimentos assim, eu nem de longe teria a imaginação e inspiração necessárias pra descrever ao certo. Mas a providência não falha. Quem estava ao meu lado tinha o que eu precisava e nem sabia que precisava. Me confortou, acolheu, foi paciente com meus muitos acessos de choro. Esteve lá, não porque eu pedi, mas porque ele quis - e se isso não é trabalho da providência, não sei mais o que poderia ser; não é parte da minha personalidade pedir atenção e companhia em momentos assim - não que eu não precise disso, simplesmente, não peço.
Temos funcionado bem juntos, o que é engraçado quando se olha pro que normalmente se analisa ao falar de compatibilidade entre casais. Eu sou corintiana, ele flamenguista. Eu sou tucana, ele petista. Sou do Direito, ele do Jornalismo. Eu sou caseira, ele gosta de sair. Eu sou religiosa, ele não gosta de igrejas. A lista é longa, acreditem. No entanto, nada disso nunca gerou mais do que provocações saudáveis. Nem se trata de tolerância. É sobre aceitação.
A Marina, uma amiga minha, foi quem mais riu disso tudo. Antes de me envolver com o Thiago, fizemos uma lista de todos os nãos, fatores que extinguiriam meu interessem em qualquer cara. Bem lista de compras, sabe? Não pode ter cabelo grande, ser de comunicação social, tem que ser católico praticante, coisas do gênero. Ter sido casado (ainda pior se tivesse filhos) era o fator que mais pesava. Aí me aparece o Thiago, com um cabelo maior que o meu, estudante de jornalismo, que eu conheci quando estava dissolvendo união estável com a mulher com quem ele tinha um filho. E foda-se a lista. Marina se acabava de rir: cospe pra cima que cai bem na testa. Caiu. E não poderia ter me deixado mais feliz. Acho que isso é simbólico quanto ao valor que damos à rótulos. O engraçado é que demorei a perceber o óbvio. Quando parei pra pensar na lista dos nãos, nenhum deles realmente me importava, porque já tinha visto todos os sims que eu precisava. Eu o amo. Tá lendo isso, Thiago? Eu te amo. Não é uma equação lógica. É claro que eu vejo as qualidades dele, mas não acho que seja só isso. Amo, e isso não se explica. Sempre que acordo ao lado dele, fico olhando e pensando na sorte que eu tenho de tê-lo comigo. Em tudo que de repente se tornou possível. Em como eu quero que isso perdure pra sempre. Nesse momento, fica registrado, só por precaução, que se por algum motivo as coisas mudem de rumo, ainda assim, sou imensamente grata por tudo que você fez por mim, leãozinho. Eu não sei se teria chegado ao fim desse ano sem a sua ajuda.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
(Falta de) Compreensão
Ninguém chega próximo dos trinta anos sem um histórico considerável. Em vários âmbitos, aliás. Experiências familiares, acadêmicas, profissionais, afetivas, que moldam tanto nosso modo de agir quanto a maneira que vemos o mundo.
Pessoas que passam por experiencias similares - irmãos criados juntos, por exemplo - no que tenho percebido (em mera observação sem qualquer critério científico) ao longo dos anos, tendem a se igualar num fator, e se opor em outro.
Por exemplo. Essa semana minha irmã me ligou, relatando situações recentes, e pedindo uma opinião. Me abstive. Nesse aspecto, eu via tudo exatamente como ela, fechado, sem interpretações divergentes possíveis. Melhor perguntar a alguém de fora - isso, no caso de conseguir compartilhar dúvidas com mais alguém.
Eu não conseguiria.
Dentre meus mais profundos temores, o de ser mal interpretada se firma como o mais presente. Tenho sérios problemas de comunicação. Pergunta pros meus pais, pra minha irmã, pro meu namorado: cotidianamente, deixo de dizer coisas por não saber como fazê-lo. Nada nunca é tão simples.
Outra coisa pode ser observada nesse estudo de caso aleatório. Embora eu e minha irmã tenhamos tirado as mesmíssimas conclusões da situação, o modo de lidar com tudo é diametralmente inverso. Isso não é bom nem ruim. São apenas pessoas diferentes lidando de formas diversas com um mesmo tipo de situação.
Pessoas são seres únicos, certo? Pontos de vista diferentes, valores individuais, idéias dissonantes. Então, nem sempre é uma tarefa fácil fazê-los entender você. Eles não entendem o que te assusta, confundem com simples birras, pessimismo ou falta de confiança. Depois de várias experiencias mal-sucedidas na sua exposição de motivos, você cedo ou tarde, perde o ânimo de se fazer entender. Dá trabalho demais, desgasta, pede uma energia imensa - nem sempre parece ser algo que valha a pena.
Mas, humanos que somos, temos esse incontrolável desejo pela compreensão alheia. Queremos ser vistos por inteiro, e entendidos de um modo que nem nós mesmo conseguimos, o que é exaustivo e impossível.
Depois de explicar tudo isso, simplesmente não consigo escrever o que me fez começar esse texto. Postos na balança, o receio da incompreensão é maior do que a vontade de dizer qualquer coisa direta.
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sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Ensaio sobre a (própria) cegueira
Eu sei que escrito, tudo soa (mais) brutal. Mais definitivo, mais forte. Talvez por isso tenha evitado tanto escrever. Me abstenho por um período e volto depois. Parece o único modo de organizar meus pensamentos: em silêncio, quieta.
Uma dessas horas nas quais percebo que não sei o que fazer.
Tive um sonho essa noite. No sonho, eu acordava e descobria que estava cega - como se houvesse muita luz (e não, eu não assisti nem li ensaio sobre a cegueira recentemente). Eu estava andando, confusa, aos tropeços, e havia muito barulho, vozes, mas nenhuma que parecesse conhecida. Certas horas, ouvia frases soltas, como se estivessem falando de mim e de pessoas que conheço, e eu me sentia envergonha, tentando fugir tateando paredes que acabavam quando eu conseguia finalmente me apoiar e me sentindo perseguida e observada o tempo todo.
Acordei aliviada ao ver o quarto escuro.
Não sei porque, mas depois de certos pesadelos acordo me sentindo frágil. Me sinto boba quando penso a respeito - foi fruto da minha imaginação, não há o que temer - mas não adianta. A sensação de estar desprotegida, exposta, vulnerável, persistiu.
Tiro algumas conclusões a respeito, é claro.
A mais contundente é sobre papéis. O modo como eu me vejo não é positivo, mas ainda assim me tornei uma espécie de conselheira full time, no trabalho e fora dele, ainda que eu nem sempre seja uma fã desse papel. Isso de ter que ser sempre calma e cordata ainda vai acabar comigo. Não demora, a gastrite vira ulcera, e literalmente, morro de raiva.
Por alguma razão, escrevo isso e uma carta de tarô me vem à mente: o louco - ou o tolo, andando direto pro abismo olhando sempre para o alto.
Pensando bem, soa como a metáfora perfeita: alguém entregue à própria sorte.
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segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Preconceito invertido
Estava lendo um post da Revista TPM no Facebook, linkando pro site da revista, que listava os maiores xingamentos feitos a uma mulher poderosa. Diz o texto: "Hoje, as mulheres têm o direito de virar chefe ou presidenta do país. Mas, por isso, ganham fama de malcomidas, recalcadas, feias, gordas e, em alguns casos, são acusadas até de... ser bonitas!".
Não tive como não lembrar de uma audiência que fiz há um tempo em que fui acusada desse absurdo. Contei aqui (Se não lembra, corre pra ler). Mas o que vem pegando mesmo nos últimos tempos nem é isso de ser bonita ou feia. De repente, notei que sou subestimada por ser supostamente nova demais.
Parece piada mas é sério.
Por pura vaidade, desde que comecei a advogar, atento muito pro número de inscrição na ordem dos outros advogados. Número superior ao meu significa que são advogados a menos tempo, número menor, que são, em tese, mais experientes. Raciocínio simples: quanto mais tempo de profissão, mais se pega a manha da coisa.
Notei que os outros advogados, aliás, costumam atentar pra mesma coisa. Com uma diferença: primeiro, fazem um prejulgamento olhando pra minha cara. Embora minha irmã insista em me chamar de velha, isso não é um consenso (Beijo pro fofo do filho do meu chefe que disse que sou nova demais pra ser advogada). Basicamente é isso: não esperam muito de mim, e quando descobrem que sei o que estou fazendo, não conseguem esconder a cara de susto (E sim, admito que me divirto com isso).
Mas se os colegas eventualmente percebem isso, o mesmo nem sempre acontece com os leigos. Olham pra alguém com cabelos brancos, careca ou cheio de rugas e imaginam que a pessoa tem anos de profissão, e começam a tratá-los como se fossem especialistas no assunto - e dificilmente poderiam estar mais enganados.
Dá uma certa dorzinha de cotovelo sim, sabe? Velhos ganham uma carta de confiança que nunca me é dada - só porque são velhos ou porque, embora a idade nem seja tão avançada assim, estão muito acabados. Injustiças da profissão: Aparentar a idade que tenho (ou talvez um pouco menos) acaba sendo uma desvantagem no quesito credibilidade inicial.
Então, pra ter credibilidade preciso criar rugas e me vestir como se fosse frígida? Oh, please.
Conhecimento, segurança, exposição de idéias de forma fluente e experiência, ninguém quer avaliar, né?
Sociedade, você me cansa.
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