terça-feira, 6 de maio de 2014

Algumas notas sobre o final da gravidez.

1) Uma gravidez tão curta não me deu o tempo necessário para pensar em muita coisa, e agora, na reta final, estou sentindo o peso disso tudo. Desde que eu soube da Alice, decidi que só faria cesárea se fosse absolutamente indispensável, se o bebê ou eu estivéssemos correndo algum risco - até agora, não parece necessário. Minha única - ou ao menos, minha principal - bronca com o parto normal é a episiotomia, o corte feito na região do períneo para ampliar o canal de parto, que serve para prevenir que ocorra um rasgamento irregular durante a passagem do bebê. Tenho ojeriza a idéia de tal corte. Sei que é um desses procedimentos que atualmente são o padrão, mas é algo que eu realmente não quero ter que fazer. 
2) O Tacio comentou no fim de semana sobre um evento sobre maternidade que vai rolar esse mês no SESC. É uma discussão sobre parto humanizado - expressão a qual eu nunca tinha dado nenhuma importância até que, na semana que eu soube que estava grávida, a Ana mencionou um centro que ela andava frequentando que é voltado para essa espécie de prática - que inclui exibição de filme e debates com profissionais da área. A maternidade pública de referencia local tem um projeto voltado para o parto humanizado e deve enviar representantes para o  evento.
3) Qual a relação entre os dois tópicos acima? É que no parto humanizado, a episiotomia é opção da parturiente. De repente, aos quarenta e cinco do segundo tempo, me vejo desesperada por mais tempo. Querendo me informar, querendo escolher algo que me agrade, querendo que a experiencia toda seja menos dramática e aflitiva. Querendo a chance de escolher alguma coisa. Querendo fugir de cortes que me parecem desnecessários, de cirurgias que eu não tenho intenção de fazer, de coisas que me soam como violentas. Não sou metida a natureba, não quero parto na água, não rejeito a idéia de anestesia. Nada disso é parte do meu perfil. Mas eu realmente gostaria que as coisas, em geral, não me fossem impostas num momento que vou estar inda mais fragilizada do que o normal. Tenho um namorado ótimo, que me apoia, cuida de mim e me deixa livre para escolher o que me deixar mais confortável - porque entende que a filha é nossa, mas o corpo é meu, as escolhas são minhas.
4) Então, esse é o drama do dia. Quero ir no evento hoje, e, conforme o caso, quero mudar todo o planejamento - abandonar o hospital particular já escolhido, e o médico que acompanhou a gravidez, simplesmente porque ele é um fã de cesáreas, e já avisou que talvez não possa fazer meu parto caso seja normal - e tenho absoluto pavor de que, mesmo que eu tenha condições de ter a Alice pelas vias normais, ele faça uma cesárea simplesmente por ser mais prático pra ele.

terça-feira, 29 de abril de 2014

De estranhezas.

Coisas da qual eu não estava com saudade: a homofobia reinante no trabalho.
Estava ouvindo comentarem sobre um homicídio recente, cometidos por dois homens, que roubaram e mataram a vítima. A notícia é de que a vítima seria homossexual, e que os acusados teriam o acompanhado após se conhecerem em bares da cidade. Aí começam os comentários homofóbicos: "o que é que ele queria com essa promiscuidade, levando dois desconhecidos de uma vez pra casa?"
Culpar a vítima é o esporte favorito desse tipo de pessoa. Estão em todos os lugares e se sentem a vontade para fazer críticas.
O preconceito não vê limites de escolaridade. No trabalho, vejo isso em pessoas com especializações, mestrados. 
No fim de semana, estava fazendo unhas enquanto passou uma matéria sobre um casal de mulheres que vem enfrentando uma batalha judicial atrás da outra: primeiro, para se casar, depois, pelo direito a fazer inseminação artificial e ter filhos biológicos, e, por fim, para registrar a criança com duas mães. Venceram todas as ações. Achei inspirador, mostrou garra, e uma triste verdade sobre a realidade brasileira: no salão, todos falavam contra elas, sobre como essa criança seria traumatizada pela diferença. Discordei, em alto e bom som: essa criança vai ser muito mais amada do que boa parte das outras que nascem diariamente. As mães, mais do que desejarem, lutaram muito para conseguir tê-la - é um bebê com muita sorte, ao contrário de tantos por aí.
Dois mil e catorze e o mundo cheio de gente com essa mentalidade desprezível. Impossível lidar com essas pessoas e não se enojar.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Datas pra listar

Que dois mil e catorze tem sido um ano de mudanças na nossa vida, isso não é segredo pra ninguém.
Às muitas datas que já temos para lembrar, esse ano temos mais algumas a serem incluídas. A primeira é 03 de fevereiro, quando soubemos da nossa filha. Logo saberemos a data de nascimento dela e essa data também será acrescida ao nosso calendário comemorativo. 
Mas duas outras datas devem ser incluídas nessa categoria, e ambas se referem a mesma coisa: quando começamos oficialmente a morar juntos.
Eu aponto, nesse sentido, o dia 23 de março. Foi quando você finalmente trouxe suas ultimas coisas da mudança, roupas, travesseiros, tv, rack, etc. Pra mim, esse foi o dia no qual você se mudou e começamos a realmente compartilhar o endereço. Apesar disso, sei que o seu entendimento é diferente: você só conta a partir de quando vendeu o guarda-roupas e entregou as chaves do seu antigo quarto, em 02 de abril. Nas suas palavras, a partir dali, você não tinha mais um lugar pra onde voltar caso eu viesse a te expulsar de casa - não imagino porque eu faria isso, mas entendo como pode ser difícil não ter um lugar pra onde voltar, um plano de fuga. Realmente, espero que isso não faça falta.
Seja bem vindo à minha vida. Por favor, fique aqui pra sempre.

domingo, 6 de abril de 2014

Ser mãe


O clássico "não sei como devia me sentir sobre o assunto" continua valendo. 33 semanas de gravidez: se eu espirrar, entro em trabalho de parto - na minha cabeça é assim. 
Namorado e eu oficialmente estamos morando juntos - a única diferença é mesmo o tal do oficialmente, o que significa que se meus pais aparecerem ele não precisa mais voltar pra casa onde ele paga aluguel. Essa, aliás, já foi devidamente notificada que ele está de mudança.
A anestesia não passou. Continuo encarando tudo numa boa porque, até a neném nascer, nada muda tanto assim. Quer dizer, muda: roupas não servem, consultas são cotidianas, preocupações de ordem prática sobre o pós-parto são diárias, mas, essencialmente, nada muda tanto assim. Continuo no dia a dia, trabalho/casa. Namorado continua um amor. Tudo mais ou menos do mesmo jeito.
É estranho. Não me sinto mãe. Fico preocupada vez ou outra, incomodada, cansada, as vezes animada - mas nada disso me faz sentir mesmo como sendo uma mãe. Provavelmente, só vou sentir mesmo isso quando ela nascer.
Tô tentando estudar, mas tá difícil. Concentração baixa, muita coisa na cabeça. 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Repouso

Sabe aquelas coisas que você sabe que não foram feitas pra você? Eu sei que isso de repouso não é pra mim. Nunca foi.
Uma coisa é estar cansada e querer ficar em casa pra dormir ou curtir preguiça. Não sendo esse o caso, ficar parada, tendo muito o que fazer, e se sentindo razoavelmente com energia, é quase torturante.
Podia apreciar o repouso forçado e ler ou assistir alguma coisa. Mas não consigo. Lembro de alguma urgência, algo a ser feito, e já era concentração.
Confesso que o smartphone tem sido de grande ajuda nesse período. Blogo, posto no Tumblr, fuço no Facebook, me distraio. Mas não resolve o problema. Eu não sou boa em delegar tarefas. Sou centralizadora, gosto de fazer as coisas eu mesma, e piro quando não posso ser assim.
Tá difícil. Nunca achei que fosse precisar, algum dia, fazer força pra não fazer nada.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Nowdays

Impaciente eu sempre fui. Irritadiça, idem. Briguenta, antipática, difícil de lidar, insira seu xingamento favorito aqui, coisas do tipo. Só que hoje, meu nível de intratabilidade está tão grande que estou cansando a mim mesma. Não, isso não tem a ver com os hormônios da gravidez.

A fase do oba-oba tinha acabado já no fim de semana. Feio dizer isso, eu sei. Mas a empolgação com a novidade passa, isso é normal. É claro que quando você encontra amigos que não tinha visto desde que soube disso, fica alegrinha, comemora e talz. Mas animação mesmo, essa já terminou.

Tem uma preocupação minha que eu só comentei com meu namorado - ele descartou, eu, por outro lado, não passo um dia sem pensar nisso. Me vejo como uma candidata ideal a ter depressão pós parto. Pensa comigo: gravidez não planejada, planos imediatos tendo que ser adiados, uma vida financeira já complicada se torna ainda mais caótica, pouco tempo pra me adaptar a essa nova vida... E não sou uma pessoa que se adapte rápido à novas circunstâncias.

Eu sei o quanto tudo isso soa egoísta. Mas acho absurdo ninguém perceber que eu estou pirando. Desconfio que o namorado também esteja - por essas e outras razões, embora ele não diga nada a respeito.

Sempre morri de medo de não poder ter filhos. Só de pensar nisso, a gravidez é bem vinda. Mas a verdade é que, em geral, eu não me sinto mãe. Essa coisa de propaganda, de filme, de novela, de imaginar a carinha do bebê, isso não sou eu. Esse desespero de montar o enxoval porque entrei no sétimo mês e agora ela pode nascer a qualquer momento, isso nunca me atingiu.

Talvez por isso tudo, eu tenha esse sentimento de retardar tudo ao máximo. Fico esperando que um dia eu simplesmente acorde e sinta tudo isso, esse ideal de maternidade, essa urgência em preparar o ninho.

Ao invés disso, ponho um sorriso no rosto e sigo fingindo que está tudo bem. Não está. Simplesmente não está.

Certos momentos, é claro, sou invadida pela ternura. Quando ela reage a algo que estou ouvindo, por exemplo, geralmente me faz sorrir. Se fico preocupada porque ela não se mexe a muito tempo, quando ela resolver dar sinal de vida vou ser envolvida por um alívio indescritível. Sempre que alguém se dá ao trabalho de dar um mimo pra ela, faz com que eu sinta que ela está sendo bem acolhida, e me emociono.

Aproveito os poucos momentos do dia nos quais me sinto melhor para escrever pra ela. Quero que o relato que ela receba disso tudo seja verdadeiro, mas, ao mesmo tempo, não quero incutir nela nenhuma culpa por tudo o que ando sentindo; tudo pelo que eu estou passando agora é meu, só meu - não é culpa dela, não tem a ver com ela.

Todo mundo ao redor insiste em ficar me dizendo que eu tenho que estar bem porque tudo que eu sinto passa pra ela não ajuda em nada. eu não quero me sentir mal. Não é uma decisão consciente, e ninguém parece perceber isso. Hoje, no trabalho, vi pessoas falando de uma terceira que teria síndrome do pânico e não "pensava positivo", como se a pessoa quisesse se sentir mal. Outro dia, fizeram o mesmo sobre alguém com depressão. Culpam a pessoa por se sentir de determinada forma - doenças psicológicas, pra maior parte das pessoas, não são doenças de verdade, são só frescuras. Escrevo isso e bate aquela identificação com a protagonista do ultimo romance da Marian Keys, Helen Walsh, que não acreditava em nada disso até que ela mesma sofreu depressão - o que tornou o tratamento bem mais complicado. Suponho que seja assim com a maioria.

Eu não quero passar sensações ruins pra minha filha. Não quero me sentir mal com nada referente a isso tudo. Não quero ter que abandonar o plano de ter um parto natural por medo de ter crises de pânico no meio daquilo tudo e tornar algo simples uma situação extremamente complicada. Eu não quero, mas não sei como não fazer isso. Não pensar no assunto simplesmente não ajuda em nada. Quanto mais eu me esforço pra não pensar nisso, pior eu durmo, menos consigo me alimentar razoavelmente, mais estressada eu fico. Se eu me permito pensar nisso, as sensações são substituídas: eu fico triste, amedrontada e deixo de me sentir sociável, mas pelo menos consigo comer e, ao pegar no sono, durmo sem maiores interrupções.

Eu não tenho como saber se e quando isso vai passar. Só posso torcer pra que passe logo.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Administrar

Não quero mais administrar nada. É exaustivo. Administrar personalidades, egos e opiniões alheias é uma tarefa árdua demais agora. Eu queria poder desabar. Não fazer nada, me entregar ao ócio, me aquietar e só pensar na gravidez. Mas não posso. Não é um luxo só qual eu possa me dar.  Nunca foi, nunca será.

Desde que me lembro, tenho responsabilidades - cuidar da mercearia dos meus pais, da minha irmã caçula, ajudar na casa, fazer almoço, daí comecei a morar sozinha e pela primeira vez pude me entregar a só fazer o que eu quisesse. Se quisesse assistir aula, assistia, caso contrário, não ia. Se quisesse comer comia, se não, ficava com fome. Escolher se eu queria ou não dormir, lavar louca, arrumar a casa. Tomar decisões por mim, e mais ninguém. Foi uma época estranha e confusa, mas as lembranças sobre essa sensação de autonomia são maravilhosamente boas. Depois, comecei a trabalhar e a vida voltou a se complicar e a tendência é que isso não termine nunca.

Eu sei que muitas pessoas tem problemas de verdade e que o que eu sinto é uma mera frescura perto deles, que minha vida é tranquila e que tenho sorte até demais. Eu sei e agradeço por isso sempre que rezo. Mas existem dias terríveis, dias como hoje, onde eu realmente não queria precisar lidar com mais ninguém. O que mais me entristece nisso é saber que eu estou passando essa sensação pra minha filha.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Aceitação


Aceitação não é algo que se possa forçar alguém. Ou vem naturalmente ou simplesmente não existe. É claro que é possível conviver e respeitar sem aceitar - não é a mesma coisa mas é melhor do que nada. Estou falando da reação dos meus pais a minha gravidez.

Eu sei que gravidez de filha solteira é sempre um choque. Mas não precisa ser assim quando a filha está com quase trinta anos. Quando é funcionária pública e tem plano de saúde. Quando está num relacionamento sério. Quando se declaram como não sendo machistas.

Meu pai não reagiu bem a notícia. Entendi, fiquei triste, mas é um direito dele. Conhecendo-o, era de se esperar. Minha mãe, por outro lado, pareceu bem racional. Lidou com isso de forma prática, e pareceu ter aceitado já num primeiro momento. Não foi bem assim. Só hoje percebi que ela está se esforçando pra agir assim, pra ser a razoável da casa. Não posso pedir mais do que isso, nem dela nem de ninguém.

Magoada ou não, isso me fez pensar: e eu, quando aceitei o fato de que vou ser mãe em até doze semanas?

Não sei dizer bem, mas eu chutaria que foi na segunda feira, quando fiz a ultrassonografia morfológica, e, num dado momento, vi a Alice abrindo e fechando a boca. Fiz duas USG antes disso e não foi a mesma coisa. Ali sim (Tum Dum Tss!) vi minha filha e me senti invadida por toda ternura do mundo - e por um borrão que me lembrava um peixinho. Antes eu sabia, ali eu senti. Dali pra frente veio a minha aceitação.

Talvez o tempo se encarregue de disseminar essa sensação pra todos. Pelo menos, minha torcida é pra isso.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Saber.

Saber, mesmo, eu soube hoje. Mas desde sexta-feira, eu comecei a considerar a possibilidade. Acordei pouco depois das duas da manhã e fiquei assim até amanhecer. Fui me consultar, foram pedidos trocentos exames. Nesse sentido, foi um fim de semana assustador. Problemas hormonais eu sempre tive, mas, assustada como eu estava, dormi mal de sábado pra domingo e de domingo pra segunda. Aí, hoje veio isso. Por mais ridículo que soe, foi um choque. Minha mãe e minha irmã entenderam isso de cara, dado meu histórico. Namorado eu não sei como está lidando internamente com isso, mas comigo está sendo perfeito. O resto do mundo vai ser mais difícil de se lidar. Acho que as postagens vão se multiplicar nos próximos dias/meses.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sobre pesadelos e desdobramentos.

Tive um pesadelo esta noite. Longo, confuso, do tipo que faz você acordar se debatendo e exausta. Não lembro de muita coisa, mas sei que a ultima coisa que aconteceu foi que eu estava sendo morta. Não estava simplesmente morrendo por estar caindo, batendo o carro, me afogando, nada disso. Estava sendo morta de forma violenta. Foi quando acordei, sentando na cama, sem ar. Acabei pegando no sono novamente, pra acordar confusa ao som do despertador.

Namorado, ao acordar, relatou ter sonhado que era morto. Ao contrário de mim, não acordou no meio disso. Sonhou com a própria morte e o sonho continuou, "como um filme", palavras dele. De igual forma, a morte era decorrência da violência imotivada alheia.

Fiquei com uma sensação ruim o dia inteiro. Liguei pra todo mundo - mãe, pai, irmã, cachorro, papagaio, e supostamente, todos estão bem. Não adiantou. Continuei chorando, nervosa, irritadiça. É irracional, eu sei. Inútil tentar racionalizar. Meu humor continuou instável, flutuando de mal a pior. Longas horas improdutivas - ou quase, porque sempre existe algum trabalho semi-mecânico para ser feito.

Não consegui afastar esse sentimento. De algum modo, a idéia de que algo está errado se enraizou. Como um sinal ainda não compreendido que traz a desordem para onde quer que se olhe e mancha cada pensamento com incertezas, torna cada passo exaustivo e cada ação excessivamente fatigante.

Um medo inespecífico é algo realmente difícil de se combater. É também a forma mais rápida de se ter uma crise de ansiedade que não se consegue controlar dos modos habituais.

Por mais absurdo que soe, por causa disso, imprimi a lista de filiados ao plano de saúde e estou tentando deixar de lado minhas restrições habituais. Não me sinto nada confortável ao fazê-lo. Mas não consigo pensar em nada mais que possa me acalmar no momento.

Uma saudade: ser menos instável emocionalmente.

domingo, 24 de novembro de 2013

Sobre o Balbuciar

Não que isso me torne melhor ou pior que alguém, mas a minha persistência em manter esse blog ativo diz muito sobre o tipo de pessoa que eu sou.
Blogs pessoais, pra maioria, são uma fase. Um momento na sua vida onde você precisa de uma válvula de escape e faz um esforço quase sobre-humano em busca de um pouco de compreensão - própria e alheia.  Em parte, também era o que eu buscava quando comecei a postar em blogs - se o primeiro blog do qual eu participei ainda estivesse ativo, em 2013 ele teria completado dez anos. Esse aqui, ativo desde 04 de março de 2007, já está quase completando sete anos. É muito tempo. Já quis desativá-lo algumas vezes. Uma, de fato,  me levou a excluir todas as postagens - devidamente salvas em um arquivo para consulta e/ou upload, em caso de arrependimento, o que aconteceu poucos meses depois. É muita exposição pessoal, em um nível completamente diferente dos facebooks, instagrans e twitters da vida. Em blogs, você expressa pensamentos e sentimentos de uma forma completamente diferente das demais redes sociais. É um exercício contínuo e simultâneo de egocentrismo e humildade. Você quer que concordem com o que você pensa e escreve, mas tenta aceitar os comentários, sejam eles quais forem. Nem sempre é fácil.
Escrever por escrever consome bem mais energia do que parece. Pensamentos não seguem uma ordem lógica e acompanhável. Exigem esforço para ser organizados em uma sequencia compreensível. E, mutáveis como são, te levam a conclusões diferentes do que você esperava. No início do texto, tencionava falar sobre o que o blog enfrentou nesses quase sete anos. Por fim, mudei de idéia. Blogs pessoais, nesse aspecto, são como filhos: são seus, você cria, orienta, alimenta, e no fim, percebe que como o mundo irá recebê-los está completamente fora do seu alcance. Aceitar isso é fundamental para resistir quando surgem os impulsos de deletar a página. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

"Moço, como você é bonito!"


Dois anos juntos e eu ainda me surpreendo com o quanto você me fascina. No meio de uma conversa cotidiana, você faz um gesto qualquer e eu acabo te interrompendo, como quem percebe algo novo. Digo e você começa a rir.  Me enfezo: eu estou falando sério, quero ser ouvida sem risadas. Mas olhando pra você, nenhuma bronca consegue perdurar. Você olha fundo nos meus olhos, entorta levemente a cabeça pro lado, e sorri. Um sorriso tranquilo, doce, que me faz querer te abraçar apertado, por tanto tempo quanto eu conseguir. 
Certas coisas pra mim são inquestionáveis. São fatos, independem de opiniões. Não é algo que eu acho, é o que é. Não adianta você contradizer, mudar de assunto, dizer que estou ceguinha: você é lindo. Quando descubro algum detalhe a mais nesse sentido, não consigo esperar, não posso me conter. Preciso falar, em alto e bom som. É um achado que preciso compartilhar com o mundo. 
Sei bem que tenho sorte. As pessoas geralmente se entediam umas com as outras em algum tempo - Deus sabe que eu sempre fui assim - e com você, nada parece mais impossível de acontecer. 
Me alegro com isso: a fascinação se renova, as surpresas são contínuas. Parece um bom começo no nosso caminho de felizes para sempre.

sábado, 9 de novembro de 2013

A velha de 120 anos

Quando eu era adolescente/jovem adulta, era do tipo que não fugia de um desafio. Pulava de lugares altos na água - mesmo sem saber nadar, descia ladeiras em bicicleta em alta velocidade - e nunca quebrei nada. Bancava a amazona sempre que tinha chance, subia nas árvores mais altas sem pensar em como desceria depois, bebia como se não houvesse ressaca. Dirigia preocupada apenas e tão somente com o tempo gasto no trajeto. E adorava parques de diversão com seus brinquedos altos, malucos e giratórios. Sonhava pular de pára-quedas, fazer escaladas em montanhas íngremes, coisas do tipo.

Faz um tempo que deixei de ser assim. Virei uma velha medrosa de 120 anos que prefere dirigir na estrada porque acha que tem mais chance de desviar dos outros em caso de necessidade, que só entra na piscina até onde da pé, que anda em montanha russa sem looping de olho fechado e se xingando por ter inventado de fazer aquilo.

Expondo meus medos em frente aos amigos ontem, ouvi de um deles "mas você ainda nem é mãe!". Ele está certo. O tipo de medo que me aflige é daquele que faz as mães darem conselhos irritantes, que parecem sem sentido, irracionais, mas inelutáveis. Não se contradiz. Não há como convencer do contrário. Não há como combater.

Chegou, de fato, bem mais cedo do que eu esperava. Na minha mente, quando mais nova, eu achava que seria do tipo de mãe que iria com os filhos nos brinquedos mais assustadores e sairia rindo enquanto acalmava as crianças. Sonha Alice. Não nessa vida.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Fome de atenção

♪ Sempre precisei de um pouco de atenção 
(Legião Urbana)

Pessoas são carentes. Em menor ou maior grau, de diferentes modos, em momentos variados. Todo mundo quer mais do que um pouco de atenção. Queremos ser vistos, notados. Seja pelo humor, pela inteligência, pela aparência, pelo bom senso, pela confiabilidade, ou por uma infinidade de outros valores que consideramos possuir em grau maior que os outros que nos rodeiam.
Dito isso, detesto gente maníaca por atenção. Eu sei. Blogueira falando isso não pode reclamar da página ficar às moscas. Mas é verdade, detesto esse tipo de gente. Aquelas que ficam rindo mais alto que todo mundo, que insistem em contar um milhão de histórias que você não pediu pra ouvir, egocentricas num nível doentio - até porque todos são o centro de seus próprios mundos. Mas o tipo de pessoa que não consegue passar meia hora sem ouvir o som da própria voz. Conhece o tipo? Então. Detesto.
Tenho sérias dificuldades de lidar com gente assim. Gente que não interage, que só puxa assunto pra falar de si mesmo, sobre como está certo em tudo o tempo todo, ou sobre como é legal em ter feito seja lá o que fez, ou em como é humano porque admitiu um erro mesmo sem admitir que estava de fato errado.
Essas mesmas pessoas negam direitos que você conhece como básicos desde sempre, até porque foi criada pra entender que o mundo é assim. Que cada um tem o direito de fazer as próprias escolhas, e que fazem isso por si mesmas, não para ofender ninguém. Que o que cada um faz da sua vida é problema dele e de ninguém mais. Que se você respeitar os outros eles vão te respeitar.
As pessoas egocêntricas a quem me refiro pensam de outro modo. Alegam nojo quanto às vidas alheias. Julgam o que não é da sua conta. Alegam que respeitam mas fazem comentários que não condizem com isso.
***
Não sei se realmente se trata de intolerância. Ou talvez se trate, sim, de perder a paciência para certos aspectos da vida social cotidiana. Para viver bem em sociedade, é necessário possuir empatia - algo extremamente complicado para muita gente, e aqui eu me incluo.
Não digo que não compreendo os outros. Mas, enquanto a compreensão geral para certas pessoas, não se trata de um exercício, mas de um dom natural, pra mim, em grande parte do tempo, exige um esforço supremo e nem sempre eficaz. Além de tudo, em muitos momentos, a tarefa é inglória: você julga o outro como errado, ele faz o mesmo sobre você, e você pondera se vale a pena ou não prosseguir com uma discussão.
***
É o tipo de pessoa que sempre tenta trazer para si a atenção, seja qual for o tema da conversa. Sobre como ela foi afetada durante o luto de outras pessoas, sobre como ela se assustou com um crime que algum colega sofreu, sobre como ela ficou triste pela doença de um terceiro. 
Isso é doença. Só pode.
Quando estou de bom humor e me deparo com momentos assim, acabo cantarolando (podem me julgar)... Kelly Key: ♪ Você tem que se tratar/ Seu problema é de ana... Analista/ Vai procurar o neuro.. o Neurônio 


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Sobre como (não) manter amizades


Tenho amigos. Só Deus sabe como e porque eles ainda são meus amigos, mas eles são e eu agradeço. Não é um mérito meu. Sou terrivelmente displicente. Telefono pouco, visito ainda menos, mas, na minha mente complicada, isso não muda nada. Não muda o fato de que eu gosto deles, me preocupo com eles, me alegro com suas conquistas e compartilho suas tristezas e frustrações. Os amo, do fundo do meu jeito distante e pseudo blasé. 
O ponto é que ando com preguiça. Não dos meus amigos: de quase tudo. Uma melancolia que me faz não querer fazer nada - e provavelmente por isso, procurar menos por suas companhias. Não acho que seja depressão. Só um fastio excessivamente duradouro.
É justamente por saber quão pouco divertido isso soa que agradeço a quem continua sendo meu amigo, desculpando minhas ausências, perdoando minhas faltas, tolerando minha falta de uma motivação decente pra assumir.
Obrigada. De coração. Um dia eu apareço, juro. Com abraços, sorrisos sinceros e uma saudade infinita pra matar.